12 de nov de 2009

Um teste diferente: Chevrolet D-10



Não sou homem bruto. Confesso uma leve queda por assobio de turbina e espirros em frenagens. Porém, detesto fumaça preta e falta de prumo em curvas.

Mas não é todo dia que se tem a oportunidade de guiar uma Chevrolet D-10, uma picape dos anos 80. É um veículo bruto, deselegante e, em contrapartida, diferente de tudo que está no mercado. Depois de guiar um Golf e um Mille Way quis experimentar algo que não fosse silencioso, confortável, ágil ou prático.

Aproveitei um feriado para ser o motorista de um senhor, função que quase sempre é feita pelos seus filhos. Esse senhor viu passar 80 anos na sua vida e 30 automóveis nas suas garagens, entre picapes, sedãs e peruas. Nunca guiou algum deles e sempre dependeu de alguém para acompanhá-lo nos negócios de compra de gado, carneiro e bodes. Naquele feriado fui, com o senhor proprietário e um colega dele, buscar um garrote (bezerro de dois a quatro anos de idade, ou do tamanho de um) num sítio a 15 km da cidade que estávamos.



A D-10 tem pintura saia-e-blusa: marrom-claro na parte superior e verde-escuro na inferior. A carroceria de madeira é comprida e deslocada para trás em relação ao eixo traseiro. As rodas de aço são de Hilux e o volante é de Opala SS – original, talvez.

A aparência está desgastada pelos trabalhos grosseiros, o parabrisa está cheio de arranhões e os bancos são adaptados. Os freios estavam com problema e a direção hidráulica, outra adaptação, precisava de óleo constantemente. Um carro mantido por gente desleixada.


Longe de ser um utilitário esportivo, a D-10 tem a altura de um. Sua cabine é espaçosa em largura, mas muito apertada em comprimento e altura. Os vidros laterais são pequenos e quando abertos não facilitam a entrada de ar. O parabrisa é largo e tem cantos curvos, que ajudam nas manobras à frente, mas é baixo demais.

Antes da hora de dar partida no bom e velho motor (um Perkins de D20) conferi o câmbio. Sua alavanca, muito comprida, segurava a manopla original. Dei partida no motor, que funcionou expelindo um tufo de fumaça. A cabine balançava e minhas pernas ficaram ansiosas para “cutucar” aquele motor. Recolhi o freio de estacionado, do tipo torcer e empurrar (como na Kombi), e tirei da inércia aquele elefante desajeitado.

O suor escorria e um toca-CD me esperava. Música e carro formam uma combinação perfeita. Achei um minúsculo botão de nome Mute e liguei o aparelho (Aiwa), que prontamente soltou a voz de Luiz Gonzaga, o cantor preferido daquele bom senhor.

Muito ouvi falar sobre a potente C-10 e seu seis-em-linha a gasolina. Resolvi esquecer tudo sobre motor e acelerar aquele "preguiçoso" Perkins de quatro cilindros e 3,9 litros. Aspirado, tem cerca de 77 cavalos. Parece pouco, mas o importante é torque e isso esse motor tem de sobra.

O câmbio tem engates longos e duros. As relações de marcha privilegiam o trabalho, pois a primeira é excessivamente curta (6,32:1), a segunda equivale a uma primeira – nos carros normais – (3,09:1), a terceira é normal e mais usada (1,69:1). A quarta é muito longa (1:1) e só é usada em rodovia. A relação de diferencial é 3,15:1.

Colocar um monstro daquele na cidade é um tédio. A visão é péssima, apesar dos grandes retrovisores. O barulho do motor também incomoda. Um educado motorista que tentava avisar-nos sobre a porta do passageiro semi-aberta teve que gritar para ser ouvido.

AO VOLANTE

Não esperei o comportamento de um Ford Ka, mas me surpreendi com o comportamento dessa gigante. As reações são inesperadas e um motorista desatento poderia ter feito besteiras se fosse repetir as besteiras que fiz.

Na cidade a D-10 parece uma louca numa joalheria. Tem visibilidade péssima (como quase todo carro dos anos 50) e é muito grosseira. Além de ser lenta de direção, padece do mesmo mal que a F-1000: suspensão dianteira mole.

Fui desviar rapidamente de um buraco (ou era uma cratera, não sei) enorme e arregalei os "zóio" de medo. Os pneus dobraram e a dianteira afundou na manobra. Eu pensava que o 147 era inseguro...

A rodovia não é a praia da D-10; muito menos a cidade. Os sítios com estradinhas planas e empoeiradas são o habitat dela. Entrei num caminho estreito, porém lisinho, e me mandei. Engatei a terceira e deixei. O torque exagerado faz com que a picape rode tranquila por vários minutos, sem perceber aclives (e devido aos freios, assustar-nos em declives).

Luiz Gonzaga já estava roco de cantar alto e não ser ouvido. É até difícil conversar com o motor acelerado. Além disso, outra coisa que causa desconforto são os buracos. A D-10 balança, pula e quer perder o controle quando avista algum caminho ruim. E aquela picape que dirigia tinha problemas sérios.

Um era a direção hidráulica com vazamento. Estava tão dura que não regressava ao centro. O outro problema estava nos freios, que não tinham força e não distribuiam a pressão correta entre as rodas. Numa freada forte, a D-10 tinha tendência de dançar e se jogar para os lados.

Mas se não fosse o barulho e os riscos não teria sentido a mesma emoção. É interessante conduzir algo averso aos carros atuais.

OS PEQUENOS DETALHES


As portas são leves para abrir e um pouco pesadas quando encontram alguma canela boba; elas não param em pontos predefinidos. A leveza para abrir os vidros pode ser comparada à do Fiat Mille. Outra coisa que achei interessante foi a trava da porta anexada à maçaneta. Para abrir/travar a porta basta levantar/abaixar a maçaneta.

Por fora o que chama atenção dos atentos são os faróis selados. Eles não possuem lâmpada e refletor separados, mas o farol é a própria lâmpada. O filamento fica dentro do farol hermético, entre o refletor e a lente de vidro.

Tá bom de detalhes, vamos ao garrote.

O GARROTE

Amarramos o garrote e puxamos até a D-10. No caminho, olhei nos olhos dele e tentei decifrar o que estava pensando. Talvez ele percebeu que me preocupo com a natureza. Ficou me olhando e, talvez, tentando me dizer:
"Veja, eu não sou um grande poluidor. Pelo menos eu, que só gosto de alimento orgânico (capim, milho e outras coisas naturais). O carro que andas polui muito mais que eu. Não me culpe se meus colegas matogrossenses e goianos poluem muito."

Dei razão ao pobre garrote sertanejo. Os responsáveis pelos 15% do efeito estufa são os gados crescidos à força, com hormônio, muita água e que soltam muito esterco. Aquele coitado mal recebia ração.

Colocamos o garrote na carroceria e fomos embora. Dirigia com se estivesse no controle de um caminhão de ovos, com medo de derrubar o animal.

A NOVA UTILIDADE

As picapes atuais não nascem exclusivamente para o trabalho – ou mais voltado a ele. Os modelos são quase “carros urbanos”, com suspensão traseira e pneus flexíveis, ar-condicionado, direção hidráulica, rodas de alumínio e aptidão para transportar cinco passageiros. Não era assim na época da D-10.

A GM até tentou colocar a D-10 com cabine dupla no mercado dos anos 70. Era como a Fiat Strada, com duas portas e pouco espaço. Mas aquela época não era o momento ideal, pois os utilitários não representavam poder no trânsito.

Trabalhar é a única função da D-10, principalmente dessa que possui carroceria de madeira. O motor é muito econômico, pois faz em média 10 km/L, e forte. O câmbio bem reduzido é bom quando tem peso na carroceria. No entanto, os freios não são exemplos de eficiência e o motor é muito barulhento.

O formato da Chevrolet
é típico de veículo de carga do século passado. Tem cabine maior que a caçamba. Isso é um grande prejuízo, pois se a função é transportar carga, o aproveitamento de espaço é fundamental. Passar o dia inteiro vendo um capô longo que balança não é nada agradável, e ter que fazer um monte de viagens, gastando mais óleo, é pior ainda. O Hyundai HR é o veículo perfeito para transporte de cargas, pois é pequeno, forte e sua caçamba não é prejudicada pela cabine. Por isso que ele faz sucesso.


Hyundai HR: configuração ideal para o trabalho


Uma configuração melhor ainda


Quem quer conforto que vá para Hilux, Frontier e Triton. Picape grande não rende no trabalho e nem oferece conforto nos passeios. Por isso que Silverado e GMC 3500HD se foram e F-250 não faz sucesso como a antiga F-1000.




GOSTINHO BOM

É até emocionane um passeio num veículo perigoso e desconfortável. Valeu a experiência com transporte de animais e com freios ruins. Fiquei até com vontade de fazer um novo favor ao senhor.




Ficha técnica - Chevrolet D-10

Motor: Dianteiro, longitudinal, quatro cilindros em linha, quatro tempos, diesel, refrigerado a água; diâmetro e curso dos cilindros, 98,4 x 127,0 mm; cilindrada total, 3868 cm3 taxa de compressão, 16,01:1; potência máxima, 78 CV (57,4 kW) ABNT a 2800 rpm; torque máximo, 25,4 mkgf (249,1 Nm) ABNT a 1450 rpm; combustível: óleo diesel.

Transmissão: Monodisco a seco de acionamento mecânico; câmbio de quatro marchas sincronizadas para a frente e ré, com alavanca de mudanças no assoalho; tração traseira.

Suspensão: Dianteira, independente, com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos; traseira, de eixo rígido, com molas semi-elípticas e amortecedores hidráulicos telescópicos.

Direção: Mecânica, de setor e rosca sem fim. Redução 24:1.

Freios: A disco na frente e a tambor atrás, de acionamento hidráulico, com servofreio; freio de estacionamento mecânico atuando nas rodas traseiras.



11 comentário(s):

Mister Fórmula Finesse disse...

Isso que é o legal, o verdadeiro entusiasta gosta de dirigir tudo, tudo é válido para apreciar novas experiências automotivas.

Dirigir carros potentes, carroças mal cuidadas, sentir a reação de cada "bicho"...tudo faz parte do mundo do autoentusiasta.

A d-10 na verdade contava com 90 cavalos no motor perkins, estranho que a potência se manteve inalterada por tanto tempo ao longo dos 80 e 90's...mas isso já constava nos testes mais antigos.

Dirigir uma F1000 da mesma idade ou parecida é experiência semelhante: alavanca que deve ser conduzida com calma, arte na passagem da primeira para segunda no H "racer", instabilidade direcional o tempo todo nas rodovias e volante que não comunica nada, só depois que caiu no barranco...

mas é legal, é divertido e sempre é válido, qualquer teste e avaliação!

VictorHugo disse...

Muuuuito bom seu texto!
Cara, vivi o que vc narrou, muito bem redigido o texto, parabéns!

Ah algum tempo, viv experiencias semelhantes, passei uns tempos numa fazenda e tinha uma D20 (perkins tb) e uma F1000 (de 4 farois) e é exatamente essas características, cambio curtíssimo e mal escalonado além da dianteira mole como gelatina!!!

Parabéns cara, bom trabalho esse seu no blog.
Flw

Anônimo disse...

Eu possuo uma D 10 ano 1980 que primeiramente foi retirada na agencia 0 Km pelo meu avo que andou nela ate 2001 e foi passada a meu pai ate 2005. Dai em diante eu que ando nela.. nao tem defeito nao.. ela e muito conservada e recebeu manutençoes constantes. Inclusive recebeu um cambio 5 marchas da D 20 ano 1988. Se a pessoa que publicou o presente artigo tivesse guiado a minha D 10 ou alguma outra bem cuidada nao teria achado essa picape perigosa ou qualquer outro adjetivo desfavoravel.

Meu Amigo de Lata disse...

Caro "Anônimo", parabéns pela sua D10. Você fez uma excelente modificação, já que o câmbio de quatro marchas não aproveita as qualidades daquele belo motor.

A D10 não aceita abusos porque tem uma suspensão dianteira mole em demasia e freios antiquados, que travam à toa. Mas esses problemas são inerentes ao projeto muito antigo.

Anônimo disse...

Aqui na minha city tem um monte de C10 á gas de cozinha e um monte de D10 também.

Anônimo disse...

Tem pegada de escritor! Parabéns! Por favor pesquiso sobre a melhor F1000 para asfalto e terra viagem e carretos em fins-de-semana. Se puder indicar alguém (ou você mesmo), que possa me ajudar a entender os problemas que alguns dizem dar no câmbio das F1000?
Muito grato! Márcio.

cRiPpLe_rOoStEr a.k.a. Kamikaze disse...

gostei dessa d10 das fotos, apesar de não estar tão bem conservada é bonita, e essa carroceria de madeira deixa ela com uma aparência mais bruta como num caminhão mesmo...

Anônimo disse...

TENHO UMA D 10 ANO 1984 IDENTICA A ESSA,ELA ESTA COMIGO A 17 ANOS.PARA MIM,DAS ANTIGAS SEM DUVIDA E A MELHOR

Anônimo disse...

Olá,também possuo uma D10 e certa vez, viajei na "bichinha", 400km levando 1 ton. foi a 1a vez que levei tanto peso, me surpreendi com a instabilidade na estrada, procurei informações p/ saber se tal problema poderia estar relacionado com a destribuição da carga ou com peso da mesma, lí alguns comentários a respeito da suspenção dianteira e gostaria de saber se algo que eu possa fazer p/ pelo menos melhorar a estabilidade na estrada. Desde já agradeço sugestões.

neto nandez disse...

Meu velho tem uma d10 ano 80,e um carro muito forte porem um pouco instavel quando esta com peso ou em velocidades acima de 80kkm\h ,aacho horrivel aqueles escapes originais que deixa o carro com um som muito feio,o bom e colocar um escap de 3 polegadas e o catalizador da d20 fica com um ronco igual o da d20 .....

Anônimo disse...

possuo uma d10 81,mas a manutençao e feita periodicamente.no caso da minha ela e longa,e quando carrego,fica bem firme no chao de barro ou no asfalto.nem vendo,nem troco por hilux,l 200,ou etc.ela e primeira de luxo.

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