31 de out de 2009

As brincadeiras atuais


Vez e outra analiso minhas responsabilidades. Não tenho tempo "para perder tempo", como tinha até os treze anos, antes de começar a trabalhar. As vezes o coração aperta por causa da saudade. Mas crescer e ficar velho é inevitável.

Sempre desejei ser grande - como todo menino - para poder dirigir, trabalhar e... namorar. Esperei amadurecer o suficiente para me engajar na vida corrida e desde os treze anos conheço o estresse e o medo de trabalhar em cidade grande. Oh, saudades da infância...

No entanto, fui criança até os quinze anos. Na verdade, ainda sou criança. Procuro manter aquela que está entre as maiores virtudes da infância: a imaginação.

Não me conformo com as brincadeiras dos meninos atuais. É pipa (ou papagaio) que degola motociclistas e queima os olhos; jogos virtuais que não propiciam aventuras; jogos orientais, geralmente em forma de cartas, que levam à violência física; e desenhos idiotas que alienam. Enfim. Nada que force a imaginação ou crie desafios saudáveis.

A imaginação é a peça-chave para tornar a brincadeira mais divertida e útil na formação da criança.

Estar em contato com a natureza é muito bom para a formação mental e física da criança. No verde ela aprende a cuidar das vidas frágeis, sobre a importância do natural, desenvolve anticorpos e coloca em prática o que aprende na escola. Andar de bicicleta e sentir o ar úmido e limpo (não sou grande ecologista, mas muito sensível à poluição) é algo que não tem preço. Mais precioso fica se o fizer com a cabeça em Travis ou Rossi.

Mas nem estes e nem Schumacher são os maiores heróis dos meninos. O pai sempre é o maior. Sempre brinquei de carrinho me baseando nas manobras que meu pai sabe fazer. Ele não é um piloto profissional, mas eu o considerava o melhor motorista do planeta. Ele me deu poucos brinquedos, mas sempre me ensinou a brincar como criança.

Pegava meus carrinhos de ferro, semelhantes aos da Hot Wheels, e construía uma cidade imaginária. Só havia os carrinhos e muitas pilhas, provindas de um carrinho de controle remoto do meu irmão. Toda a cidade ficava na minha cabeça. E brincava assim por horas.

Fui crescendo e conhecendo novos brinquedos. Com minha primeira Ferrari F50 a controle aprendi a fazer baliza. As pilhas usadas faziam o papel dos cones. E até fazia disputas com a família.

Gastava boa parte da mesada com pilhas alcalinas, que sempre foram mais caras, mas davam maior desempenho. E na busca por desempenho e emoção coloquei fita isolante, usada em fiação elétrica, nos pneus traseiros. Com elas podia dar belas derrapadas!

Cheguei à loucura de inserir mais duas pilhas naquele brinquedo. Liguei-as diretamente no motor para não sobrecarregar a placa eletrônica. A F50 virou um canhão!

Uma Ford F-150 com rodas de Ferrari F-50

Sempre procurei desafios. Costumava comprar carrinhos baratinhos para modificar. Meu primeiro tuning (hoje detesto o tuning, apesar de gostar da customização) foi num Golf de R$ 1,99, daqueles coloridos. Pintei a carroceria dele na cor prata (era o spray que estava "dando sopa"), as rodas na cor preta e rebaixei. Ficou tão bonito que um marmanjo me comprou por R$ 5.

De um colega comprei bancos tipo concha, quadro rodas e um volante de uma Ferrari F50 quebrada e que fora brinde dos postos Shell. A pobre coitada ficou meses nas mãos de um garoto descuidado. Comprei os restos do brinquedo e aproveitei algumas peças para colocar numa Ford F-150 SVT Lightning, que ainda está em meu poder.

Bancos tipo concha e pneus assimétricos...

Entretanto, nem brincar de carrinho as crianças sabem. Esqueceram o "sonho de ser adulto" e "brincar sério". O "faz-de-conta" ficou no passado. Hoje a infância acaba aos oito. Isso é ridículo. Meninos que antes "detestavam" meninas aprenderam um tal de "ficar" e que carrinho é coisa de bebê...

Me lembro de um primo mais novo. Ele sempre gostou de brincar com brinquedos simples e detestava aqueles exóticos, cheios de peças e cromos. Sua imaginação era muito fértil. E com dez anos ainda era uma criança feliz, inocente e sábia, bem diferente dos colegas.

O que faz a diversão não é o valor do brinquedo, mas a cabeça de quem brinca com ele

Os pais precisam resgatar as brincadeiras que fortalecem o intelecto da criança. A criança precisa de aventuras, nem que sejam apenas dentro de sua mente. Criança não pode levar uma vida de adulto.

Não acho que minha infância foi perfeita. Só acho que as crianças atuais estão seguindo um caminho muito prejudicial à própria humanidade. Infância sem inocência, sonhos, imaginação e brincadeiras não é infância. É um pesadelo.
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Fotos de Diego de Sousa

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