27 de out de 2010

A PASSARELA DE LIMEIRA

Por Mister Fórmula Finesse


 
Minha obsessão por carros desde novo relegou ao segundo plano os criadores, manufaturadores e pilotos laureados de tão incrível máquina. Para mim só existiam os carros e suas respectivas identidades e peculariedades, se ele fora desenhando por um famoso designer, ou se um técnico elevado a condição de gênio foi o responsável pela elaboração do seu comentado cabeçote, ou ainda se piloto tal – dono de zilhões de conquistas – fora responsável por massacrar todos os recordes do “ring” com esse carro; isso realmente ficava em segundo plano para mim. Um descabido desassombro em relação a ação humana, em favor unicamente do produto de deleite já firmemente acabado.

Por isso talvez, Interlagos, Monza e outros nomes famosos no imaginários dos alucinados por carros e competições, não faziam tanto sentido assim para mim até atingir a maioridade. Apenas depois da morte de Senna, o gatilho foi disparado e passei a  apreciar com um pouco mais de cuidado o fascinante mundo das competições; que ironia...

Bem, depois dessa confissão digna de um fariseu, é preciso dizer que existia sim uma pista que acalentava meus sonhos e enchia a minha cabeça de números e imagens na juventude: a pista de Limeira, segundo lar da Quatro Rodas por muito tempo e acredito que ainda o seja após a mudança temporária de alguns locais de avaliação ao longo da história da revista.

A pista de limeira é de propriedade de uma marca de freios se não me engano, mas pesquisar esses dados a fundo não trariam nada de acréscimo ao texto, pois quero falar apenas das impressões que eu tive com o passar dos anos, em intensa e devotada leitura a revista. Não tenho ideia da localização exata e nem procurei fotos mais nítidas ou informações mais tangíveis, é mais importante para mim construir uma imagem idealizada para tentar captar o porque escrevo sobre ela e o porque eu manifesto um pequeno protesto.

Vocês devem estar se perguntando: “mas esse maluco despreza o Templo de Interlagos, anfiteatro de semideuses para falar de uma pista de testes?”....sim amigos, não é coerente mas vou tentar explicar. A pista de Limeira  têm sentido para mim pois foi nela que um elenco notável – alguns nem tanto é claro -  de carros nacionais e internacionais tiveram seus dotes dinâmicos avaliados ali. 

Carros começaram a demonstrar sua personalidade verdadeira naquela pequena reta de 1800 metros, uma medida simplesmente ridícula se a intenção é realmente tocar nos limites dos carros, mas que ao menos serve de parâmetro para todos os carros testados lá, sendo nacionais ou possantes importados, esses, deveras sacaneados perante as limitações impostas.

As máquinas criavam vida ali -  e apesar da reta pequena - eles tinham apenas  o vento para enfrentar e nenhuma ameaça de tráfego; era nesse curto pedaço de asfalto que teriam que dar tudo por tudo, surpreendendo ou decepcionando seus fãs e potenciais compradores do outro lado da revista. Evidentemente que eu quase ficava furioso com números relativamente tão baixos em comparação as outras revistas, não aceitava que carros nacionais  considerados rápidos oscilavam entre 164 e 178 km/h reais, não mais do que isso. 

Ora bolas, essas máximas eu atingia antes de engatar a última  marcha em alguns dos meus carros!!!!....Evidentemente que eu era ainda muito refém dos erros grosseiros de velocímetro que jogavam muito para a torcida mas pouco para o mundo real. Do mesmo modo, o coeficiente máximo de insegurança e credibilidade material zero eram os meus ingredientes, verdadeiro mundo paralelo em relação aos critérios que uma grande editora deveria utilizar. Mas mesmo assim eu ficava as vezes injuriado, até entender...

Entender quê:

Entender quê apesar das claras limitações de espaço para atingir todo o potencial dos veículos, o leitor teria certeza que medição séria e a criteriedade de método eram norma e direito igual para qualquer coisa testada lá, desde um humilde Chevette Junior até os afamados esportivos que começavam a desembarcar no país. E isso era muito legal, passava a sensação clara de unidade e seriedade, fatores externos pouco poderiam fazer para atrapalhar os testes, nós aficionados, saberíamos que em uma reta pequena, esses carros atingiriam isso e ponto, nenhuma máquina sofreria injustiça alguma.

Ficou tão interessante com o passar de anos, acompanhar as escaladas da velocidade através da tecnologia aplicada, o decréscimo das cilindradas em alguns casos, e o aumento das máximas servindo quase como regra...o triunfo da tecnologia! Igualmente auspicioso era a possibilidade de comparar modelos e motores de épocas diferentes pela simples consulta de “arquivos” do que eles podiam atingir em números de pista: épocas, histórias, impressões...tudo relativizado em meia dúzia de números que na simplicidade deles, podiam conter dentro de si um verdadeiro universo que envolvia fábrica, testador e  leitor; e se esse fosse bem imaginativo - com os números de Limeira - ele poderia criar um mosaico entusiasta dentro de si e apontar para seu preferido automotivo e dizer jocosamente: “eu sei do que você é capaz, mas aquele fazia o mesmo há vinte anos”...eu sei, eu compreendo, eu creio.

A passarela de Limeira, viu os melhores nacionais desfilando por lá desde o seu implemento, imagine agora uma pequena frota de carros novos, estalando de plenitude física, tépidos para acelerar, entrando para a rotina dos testes no inicio de uma manhã.

Volte no final da década de oitenta; pense no sisudo Diplomata alcoólatra, olhando com certo deboche para seu primo avançadíssimo, Kadett GS, e comentando de soslaio: “Garoto, você verá o que farei até o final da reta”. E ele parte! animado pelo grande e etrusco bloco que já movimentou até caminhões, chegando antes da curva a praticamente mesma velocidade final do afilado aerodinamicamente Kadett esportivo, e pedindo mais asfalto.... Ou quem sabe, pense nas caríssimas picapes da mesma época, enfrentando uma reta que para elas era longa demais - em histérica cacofonia diesel - buscando os último fôlego para vencer a resistência do ar, e mal e mau passando dos cento e vinte horários.

Carros recém-lançados, segredos revelados, máquinas que fariam qualquer entusiasta ficar com torcicolo ficavam lá, perfiladas, esperando sua vez de mostrar que eram feitos de mais coisas do que mero metal, borracha e plástico. Um verdadeiro concessionário multimarcas a espera de enfrentar as duas retas unidas por curvas de baixa velocidade. Já imaginei, em ímpeto juvenil, como eles poderiam melhorar as fracas marcas de velocidade; se entrassem na curva anterior no limite da aderência, sangue nos olhos, negociando ela com a máxima potência que poderia ser disponibilizada, o carro saindo lançado como um foguete, perseguindo como um lobo esfaimado a marca lá na frente do inicio da frenagem....Sim, mas desse modo, alguns veículos seriam realmente prejudicados; exemplo? como um Palio impulsionado pelo “torcudo” motor 1.8, iria se sair diante de um Polo hatch? Depois de lixar um pouco a curva, adernando em agonia, acomodando seu peso sobre a conhecida suspensão macia, é evidente que sua velocidade de saída – ponto de partida para a reta – seria menor do que do afinado volkswagen, e desse modo, a veracidade do teste pretendido – velocidade máxima – ficaria um tanto prejudicada. Creio então, que velocidade padrão para o ínicio da reta deve ser a metodologia utilizada desde sempre, questão de seriedade novamente.

Por isso, volto de novo ao mesmo ponto, as condições eram dadas igualmente a todos os carros... democraticamente. Sempre sabíamos que o rendimento poderia ser melhor em outro local (Viracopos, pista circular da GM), mas depois de tantos anos de testes, acompanhando números e mais números, começamos a considerar Limeira como “parte da família” como o palco as vezes tão criticado, mas ao mesmo tempo sempre querido e esperado para um novo espetáculo (ou fiasco) protagonizado pelos carros. Havia para mim qualquer coisa de divinatória e impenetrável no misterioso prestígio dessa pista, e isso tudo vindo a puxar predicados como confiabilidade e retidão dos resultados. 

Desse modo, tendo suas virtudes e faltas já ossificadas nos fundos recessos do imaginário desse dedicado entusiasta, só tenho a lamentar que agora, a revista não publique mais os valores de velocidade máxima obtidos no local em suas edições. Na verdade, esse teste parece que deixou de existir apesar da relativa importância na vida real... É como se dessem o braço a torcer a limitância física da reta, como se esta, não servisse mais para encantar, decepcionar e servir de extensa base de pesquisa para ver a quantas anda a evolução dos carros nacionais e importados...dar as caras ao passado!

E isso eu lamento, pois ante as incertezas de uma longa reta fechada para tráfego, com promessas tão deliciosas como proibidas de velocidade pura, eu aindo fico optando pela “nossa” pequena e arquimerecida Limeira.

Espero que um dia ela volte a nos espezinhar com suas pequenas e instigantes limitações. Basta só olha o númerozinho da velocidade máxima no canto da página...


2 comentário(s):

Fabio disse...

MFF,

Eu nem sabia, a 4R não divulga mais vel. máx.? É uma pena! Não compro mais revistas, mas saber disso deixa a idéia de comprar uma 4R ainda mais distante. Era a primeira coisa que eu olhava... Sempre torcendo pelo GTI... rs*

Abs

Anônimo disse...

Fala Fábio!

Olha, as últimas não constavam nada; chato isso! Eu usava a pista como termo de comparação para a quantas a evolução dos motores funcionou.

Gti, batia nos 175, 176...uma Space fox conseguia 173 alcoolizada nas mesmas condições.

è disto que eu gostava, do relativo..de ver uma p..de Spacefox andando junto com uma Caravan 6 por exemplo na reta curta.

Milhares de exemplos para embalar nossa imaginação, mas agora, temo que não mais!

Continue prestigiando o blog, abraço

MFF

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