13 de set de 2010

O RIQUIXÁ DO SÉCULO XXI


Por Mister Fórmula Finesse

O POCKET TEST

Sim, confesso que o termo pocket eu afanei das revistas de celebridades que adoram publicar sobre shows de cantores e artistas que animam salas de hotéis frequentados por famosos em todas as suas subespécies. É o tal do pocket show para cá, pocket apresentação acolá, e a turba de deslumbrados vai seguindo o seu alegre e iluminado caminho. Eu seria mais original se tivesse lembrado do termo pocket rocket, algo bastante utilizado para nominar carrinhos realmente quentes, um tanto raros em nossas garagens. Talvez por isso eu não tenha feito uma associação mais pertinente.

Bem, o pocket test, ou teste de bolso em livre tradução, é apenas isso mesmo: uma breve avaliação de um modelo de carro baseado em livres impressões intuitivas. Não existe uma cartilha a ser seguida, procedimentos ou um modelo isento de apuração. É aproveitar o pouco tempo que está com o carro e pé no fundo, tentando comprimir o máximo de informações tácteis possíveis nessa breve estada. Trata-se claramente de uma abordagem mais entusiasta, mais emocional e que no fundo, celebra um pouco o prazer da condução.

Mas mesmo que o mínimo de diversão seja proporcionado ao volante, não podemos turvar a visão e deixar de apontar os defeitos e deficiências que pensamos ter encontrados. Sem a necessidade de navegar no ácido corrosivo que é a tônica das críticas automotivas que os ingleses costumam utilizar, dá para fazer vários apontamentos lançando mão da... finesse.

A MAHINDRA SUV SCORPIO

Tendo a necessidade de transportar um certo volume apreciável de bagagem em viagens, e ao menos mais dois adultos além de duas crianças pequenas; fiquei bastante contente em receber um convite para andar na Mahindra SUV. Evidentemente, é um carro que nunca povoaria meus sonhos especialmente devido ao seu desenho estranho, mas as contingências da vida teimam e nos tirar das nuvens onde pululam lindas e serelepes BMW’s X6...

Bem, a indiana Mahindra na versão SUV é alta, quadrada e parece sólida como um monólito. Alta a ponto de podermos instalar uma cadeirinha no seu teto e nos imaginarmos verdadeiros Paxás desfilando de elefante. Ela é quadrada, aproveitando qualquer cantinho disponível para transformar em espaço, o seu teto alto dá a impressão que verticaliza tudo ao seu redor, os ângulos dos bancos são retos, o couro é um pouco duro, realmente a palavra aconchego não faz tanto sentido por aqui.

Os plásticos são francamente do segundo time, e o desenho algo exótico do exterior também reflete no painel central. Mas apesar disso, o volante é correto e a sua buzina não é o instrumento de guerra que pensamos ser ao imaginarmos o trânsito padrão da Índia: um fluxo tocado a base de buzinadas a cada nano segundo.

Desempenho, câmbio e freios: Ligando o motor, ouve-se o rumor comportado do bloco Mercedes 2.6 acordando os cento e dez cavalos que a ficha técnica do folheto declara (hum... quase acho que não deveriam declarar cifras tão baixas), e torque de quase 28 kgf. Silencioso, bem sonorizado, talvez pelo fato de ser um pequeno coração em corpo tão grande. Primeira engatada facilmente, a embreagem modula bem e logo estamos em movimento; o motor empurra bem a primeira, a segunda cai como deveria ser e a festa deveria começar ao final desta...festa em motores realmente potentes diga-se de passagem. No entanto, sabendo da potência declarada, você nunca vai esperar muita coisa, mas é ali que a relatividade dos motores diesel dá as suas caras. Cento e dez hp na gasolina seriam a morte nesse carro, mas a turbininha germânica mantêm o motorzinho diesel “antenado” o tempo todo, você estica e ele responde, pede retomada e ele o faz muito bem se não tiver preguiça de manejar o câmbio. Uma caixa automática aqui e o carro seria tão interessante quanto caminhar, pois vemos o estrago que esse tipo de câmbio faz em motores diesel maiores e mais potentes.

O carro deslancha bem vazio, segue o fluxo com facilidade e sabemos que pequenos pressurizados diesel podem dar cartadas muito boas com constante incentivo. A caixa exige um pequeno aquecimento prévio para a terceira entrar sem ranger, algo muito parecido com os Fiat dos anos noventa, trocas de marcha mais rápidas então, só serão aceitas com o conjunto todo mais aquecido. Mas depois disso, o curso e o tato mecânico são realmente muito bons, melhor do que muita Blazer. O pedal do freio é um tanto tempestivo, pois sua assistência está exagerada, mesmo que o ABS resolva a parada em modulagens mau calculadas, é chato ficar calculando o tempo todo a força a ser aplicada no pedal. A posição de dirigir é alta, e não existe dispositivo para baixar o assento, questão de perfil do carro, mas além da conectividade perdida por uma falta tão prosaica, é fácil potencializar os (maus) efeitos da gravidade ao contornar curvas mais rapidamente.

Estabilidade: A estabilidade é correta em algo tão alto, ela encontra a sua linha com facilidade e a direção não exige grandes cuidados. A Mahindra aderna, assusta mais do que uma real ameaça de instabilidade, sendo preciso na condução, dá para tirar de letra a maioria das situações. Não é preciso ter em mente o tempo todo como o carro se sairia no teste do alce, ela avisa bem até onde pode ir.

Manobrabilidade e Conforto: O volante leve é uma boa ferramenta de condução, torna a vida mais fácil, mas o diferencial corta um pouco os baratos: ao fazer um retorno em um trevo -, prevendo a aproximação pouco amistosa e rápida de um caminhão de cargas - girei o volante com vontade em um golpe e cutuquei a embreagem para quebrar o ângulo da curva e sair com o máximo de torque e mínimo de espaço ocupado. O carro inclinou-se mais como o esperado, mas a ausência do diferencial blocante foi bastante sentida no pneu que destracionou com vontade, fazendo com que a traseira não ficasse na angulação pretendida, pois o pneu com mais contato com o chão ficou sem força suficiente...chato!

No calçamento, ela roda macio, e mesmo caçando buracos e desníveis, dificilmente a camionete perde a compostura em termos de conforto. A areia e a água que porventura vamos encontrar em calçamento de pedra são enfrentados com a vontade de deslizar em powerslide (novamente o teimoso); mas tudo que se consegue é o protesto do pneu que ficou no “lado mais leve”, com a camionete saindo pouco do prumo; quem sabe com a tração ligada.... mas ali o fôlego do motor não daria para nada.

CONCLUSÃO

Enfim, depois de rápida avaliação, ficou patente que a Mahindra SUV Scorpio é um produto interessante pelo que custa, coisa de noventa mil reais, ela transporta o motorista com certa celeridade, os comandos nos conectam bem a ela apesar da altura do assento, o espaço é adequado a uma família e o bloco diesel lá na frente - com a chancela mercedes-benz - é quase que garantia de pouca ou nada de dor de cabeça. Ela é melhor de dirigir do que sua estranha e obsoleta aparência fazem transparecer. Sim, ela é um produto indiano, país que ainda caminha para ter uma industria automotiva desenvolvida. Essa carência tecnológica não têm como desaparecer da noite para o dia. Quando você abre o álbum de fotos e vê seu avô sorrindo feliz ao lado de um Chevrolet ou Ford, pode apostar que quando um cidadão indiano faz o mesmo, provavelmente verá seu antepassado ao lado de um búfalo e de uma carroça, quem sabe nem fotografia terá como recordação, mas sim um litografia...e isso não é deboche, é apenas a constatação das enormes diferenças que envolvem o gênero humano e a sua penosa evolução. Eles chegarão lá também...

A Mahindra tal como um chamativo riquixá, cumpre sua função com certo louvor, e com bônus do exotismo que a cerca. Pode assustar, causar comentários desabonadores ou até pode seduzir, mas não deixará nunca de ser uma interessante experiência para quem quer dirigir coisas novas.

1 comentário(s):

Anônimo disse...

"sócio", o visual do blog ficou bem melhor agora!

Realmente bem atrativo!

MFF

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